Enterocolite Necrosante: O Que as Famílias de Prematuros Precisam Saber?

A enterocolite necrosante (ECN ou NEC) é uma das condições mais graves e temidas no cuidado neonatal, especialmente entre os prematuros. Apesar de não ser amplamente conhecida fora do ambiente hospitalar, é a principal emergência gastrointestinal nos recém-nascidos e uma das causas mais frequentes de cirurgias abdominais em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN).

Neste blog, você vai entender o que é a ECN, como ela se desenvolve, os sinais de alerta, tratamentos disponíveis e formas de prevenção.

O que é a Enterocolite Necrosante?

A ECN é uma inflamação grave que acomete a parede interna do intestino. Nos casos mais severos, pode causar necrose (morte do tecido intestinal), perfuração e infecção generalizada. Acomete predominantemente recém-nascidos prematuros e/ou gravemente doentes, especialmente aqueles com peso abaixo de 1.500g ou que passaram por quadros como asfixia ao nascimento, cardiopatias congênitas ou infecções perinatais.

É uma doença grave e multifatorial, ainda sem uma causa única definida. No entanto, sabemos que ela está diretamente relacionada à imaturidade intestinal, à redução do fluxo sanguíneo intestinal e à presença de bactérias que invadem a mucosa inflamada.

Em grandes centros nos Estados Unidos e Canadá, ela tem uma incidência de até 7% dos RN abaixo de 1,5 kg, e a mortalidade gira em torno de 20 a 30%, especialmente quando há necessidade de cirurgia.

Por que ela atinge mais prematuros?

O intestino de um bebê prematuro ainda está em formação. Ele é mais frágil, tem menos defesa contra bactérias e ainda está aprendendo a digerir a dieta que o bebê recebe: o leite. Além disso, o sistema imunológico e a circulação sanguínea ainda não estão totalmente preparados para proteger esse órgão tão delicado.

Por isso, quanto menor a idade gestacional e menor o peso ao nascer, maior o risco de ECN.

Mais de 90% dos casos de ECN ocorrem em prematuros, especialmente os menores de 1,5kg. Mas alguns fatores aumentam ainda mais o risco:

  • Asfixia perinatal
  • Anemia severa com necessidade de transfusão
  • Cardiopatias congênitas
  • Infecções pré-natais (como em ruptura prolongada da bolsa)
  • Uso precoce ou aumento excessivo do volume de fórmulas infantis
  • Tratamentos com antibióticos ou bloqueadores de ácido
  • Pequeno para idade gestacional (PIG)
  • Exsanguineotransfusão

Como a ECN aparece?

A ECN geralmente aparece nos primeiros dias ou semanas de vida, especialmente depois que o bebê começa a receber alimentação pelo intestino (normalmente por sonda, no início).

Os sinais que mais preocupam são:

  • Barriguinha inchada e dura
  • Dificuldade para digerir o leite
  • Vômitos com bile ou sangue
  • Fezes com sangue
  • Letargia (bebê mais parado ou sonolento do que o normal)
  • Febre ou temperatura muito baixa
  • Paradas de respiração (Apnéias)
  • Exames laboratoriais alterados, principalmente plaquetas baixas

Esses sinais nem sempre aparecem todos de uma vez. Por isso, as equipes da UTI ficam em alerta constante.

Geralmente, o diagnóstico é feito com exames de imagem, como radiografias, que mostram se há ar onde não deveria estar, dentro da parede intestinal (pneumatose intestinal), por exemplo, ou sinais de perfuração intestinal).

Muitas vezes, é uma combinação entre o quadro clínico, a observação dos profissionais e os exames que permite iniciar o tratamento ainda na fase inicial da doença, o que é essencial para evitar complicações.

E o tratamento?

Assim que há suspeita de ECN, a alimentação do bebê é suspensa imediatamente, para que o intestino possa “descansar”.

A partir daí, a equipe médica entra com:

  • Sonda gástrica para aliviar a barriguinha
  • Antibióticos pela veia
  • Suporte nutricional: nutrição parenteral (direto na veia)
  • Controle rigoroso da perfusão sanguínea
  • Monitoramento 24h por dia

Em boa parte dos casos, o bebê melhora com esse tratamento clínico, sem precisar de cirurgia.

Mas se o intestino estiver muito lesionado, ou se houver perfuração, a cirurgia será indicada para retirar a parte afetada e evitar que a infecção se espalhe.

E depois da cirurgia?

Cada bebê é único. Em alguns casos, é preciso fazer uma ostomia temporária, que é quando uma parte do intestino é exteriorizada para fora da barriguinha, permitindo a eliminação de fezes por uma bolsinha até que o intestino cicatrize.

Com o tempo, e com acompanhamento adequado, o objetivo é proporcionar condições para que esses bebês consigam retomar a alimentação e tenham um bom ganho de peso. Esse é um grande desafio.

Pode deixar sequelas?

Sim, alguns bebês podem apresentar complicações como:

  • Dificuldade para absorver nutrientes
  • Estreitamento do intestino (estenose)
  • Atraso no crescimento
  • Síndrome do intestino curto (quando foi preciso retirar uma parte muito grande)
  • Colestase
  • Alterações no neurodesenvolvimento a longo prazo 

Por isso, o acompanhamento com pediatra especialista, gastropediatra e outros especialistas  após a alta hospitalar é fundamental.

É Possível Prevenir?

Embora nem todos os fatores de risco sejam controláveis, a prevenção da ECN é possível em muitos casos, principalmente por meio de cuidados neonatais adequados:

  • Leite materno crú e colostroterapia: o leite materno tem componentes protetores para o intestino imaturo. Na impossibilidade de dar o leite da própria mãe, utilizar leite humano pasteurizado
  • Uso criterioso de antibióticos e fórmulas infantis
  • Introdução gradual e precoce da alimentação enteral, com dietas tróficas
  • Evitar medicamentos que alteram o pH gástrico, como os inibidores de ácido
  • Se houver necessidade de transfusão sanguínea, muitos serviços optam por pausar a alimentação durante a transfusão.

Além disso, algumas UTIs Neonatais utilizam probióticos (sob supervisão médica) como uma possível forma de prevenção, embora ainda em caráter experimental. Isso não faz parte da rotina. 

A enterocolite necrosante é, sem dúvida, um dos maiores desafios que enfrentamos no cuidado com recém-nascidos prematuros. Mas com diagnóstico precoce, manejo clínico adequado e cuidados neonatais individualizados, muitos casos são tratados com sucesso e sem necessidade de cirurgia.

Meu papel como especialista em prematuros é justamente esse: antecipar riscos, agir com rapidez e, acima de tudo, acolher cada bebê e sua família com empatia e técnica.

Se você é mãe, pai ou cuidador de um bebê prematuro, saiba que informação salva vidas. E que você não está sozinha. 

Mantenha-se informada, busque um atendimento individualizado, humanizado e especializado para escolher as melhores opções de vacinação. Você pode ter mais informações clicando aqui. Também, acesse minha página no Facebook e o perfil do Instagram para ter acesso a conteúdos de valor sobre saúde infantil.

Dra. Jessica Soares⠀

Pediatra e Neonatologista⠀

CRM-SP 126.429 | RQE 60.897

Compartilhe esse post

Leia mais